Presa em casa em 2020, uma sul-africana plantou 1.400 videiras à mão e as cuidou por quatro anos antes da primeira colheita. Paulo conhecia bem esse longo meio do caminho.
E não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos.
Gálatas 6:9
Quando o mundo fechou em 2020, uma sul-africana de vinte e sete anos chamada Natasha Jacka ficou presa na casa dos pais, com os estudos de enologia suspensos e pouca coisa para fazer. Ficou olhando pela janela para o jardim e imaginou videiras ali. Então plantou algumas. Mil e quatrocentas, espremidas em dois canteiros do quintal dos pais, à mão. Aí veio a parte que o lockdown não conseguia acelerar. Foram quatro anos de cuidado, sem nenhum vinho para mostrar, antes da primeira colheita. Ela fez tudo sozinha, até pisar as uvas. Quando enfim chegaram as primeiras garrafas, os críticos ficaram pasmos. Um chamou o projeto inteiro de um triunfo da esperança sobre o bom senso.
Existe uma frase numa carta de Paulo bem para o longo meio do caminho de uma coisa dessas. Não nos cansemos de fazer o bem, ele escreve, porque a seu tempo colheremos, se não desistirmos. Repare na ordem. A colheita é real, mas vem no fim, no tempo dela, não no nosso. Tudo o que vem antes é a parte sem glória: plantar, regar, os anos em que as fileiras parecem nada e ninguém te culparia por largar.
Quase toda coisa boa é construída assim. Um casamento, um ofício, um filho criado, uma fé mantida. Você planta numa estação que não escolheu, muitas vezes uma difícil, e aí vem o longo trecho em que você simplesmente não para. A colheita, quando vem, parece repentina para todos que não viram os quatro anos silenciosos. O trabalho ficou escondido o tempo todo em que estava dando certo.
Ela poderia ter passado o lockdown esperando aquilo acabar. Em vez disso, pôs algo na terra. As videiras fizeram o resto, no tempo delas, como fazem quase todas as coisas que valem a pena.