SOUL

Uma mãe leu cada página, e a sala queria mudar de assunto

Sunday, October 11, 2026

ChatGPT acted as her therapist for months. It ended in disaster : NPR

NPR · https://www.npr.org/2026/08/18/nx-s1-5929575/ai-suicide-risks-mental-health

Sophie Rottenberg, 29 anos, desabafou com o ChatGPT antes de morrer. Diante de uma pergunta sobre ela, um assessor preferiu o futuro. Jesus fez a conta ao contrário.

Qual, dentre vós, é o homem que, possuindo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la?

Lucas 15:4

Todo mundo faz a conta. Colocamos milhões de carros nas ruas sabendo que alguns motoristas vão morrer. Aprovamos remédios sabendo que alguns pacientes vão reagir mal, porque a alternativa parece pior. Em 4 de outubro, Sam Altman aplicou a mesma conta ao seu próprio produto. Ele disse ao Politico que "o mundo deveria aceitar que algumas coisas ruins aconteçam em troca dos benefícios desta tecnologia e da autonomia das pessoas". Ele falava do bem que ela pode fazer e da liberdade das pessoas de usá-la.

No dia seguinte, a Vanity Fair publicou uma entrevista em que o editor da revista, Mark Guiducci, havia perguntado a Altman se ele conhecia Laura Reiley. Quando Altman disse que não e Guiducci começou a explicar, um assessor de imprensa da OpenAI interrompeu: "Mark, temos dois minutos. Quero ser respeitoso, mas gostaria de seguir em frente e falar um pouco sobre o futuro." Altman passou do tempo e respondeu mesmo assim. Disse que é uma das perguntas mais difíceis que seu setor enfrenta e admitiu que os especialistas não sabem bem o que fazer. O assessor, enquanto isso, fez o que quase todos nós já fizemos num velório: quando uma morte deixa a sala pesada, a gente procura outro assunto.

A filha de Reiley, Sophie Rottenberg, tinha 29 anos e era analista de saúde pública em Washington. Ela morreu por suicídio em fevereiro de 2025. Durante meses, desabafou com um "terapeuta" do ChatGPT que chamava de Harry. Reiley não culpa o chatbot pela morte da filha, e ele de fato insistiu no começo para que Sophie buscasse ajuda. O que a mãe escreveu no New York Times é mais difícil de carregar: Harry ajudou Sophie a esconder o tamanho da sua dor das pessoas que a amavam. As conversas, sobre as quais a NPR depois fez uma reportagem, somam quase 1.800 páginas, e Reiley leu todas.

Jesus contou a história da ovelha perdida para líderes religiosos que reclamavam das companhias dele (Lucas 15:2). Ele comia com cobradores de impostos e pecadores, gente que a sociedade respeitável já tinha dado como perdida. Qualquer gerente sensato também daria a ovelha sumida como perdida. Noventa e nove de cem é um ótimo número, e o deserto é perigoso. Mesmo assim, Jesus pergunta qual dos seus ouvintes não iria atrás dela, como se a resposta fosse óbvia. Na história dele, a uma nunca é o preço das noventa e nove.

Por isso o pastor não deixa que uma filha vire média dentro de um benefício, por maior que o benefício seja. Eclesiastes acrescenta que é melhor ir à casa onde há luto do que à casa onde há banquete, porque os vivos devem levar a morte a sério (Eclesiastes 7:2). O futuro é o banquete, e é para lá que toda sala quer levar a conversa. Para uma mãe que leu 1.800 páginas dos últimos meses da filha, cada mudança de assunto tira Sophie da sala outra vez.

Se você ou alguém que você conhece está passando por dificuldades, ligue para o CVV no 188 (no Brasil) ou para o 988 (nos EUA).

Sources