Um poema sobre enchentes e dinheiro é lido em casamentos por gente que nunca foi testada nele. Martha Lillard, a última americana num pulmão de aço, casou aos 78.
As muitas águas não podem apagar o amor, nem os rios, afogá-lo.
Cânticos 8:7
Martha Lillard pegou pólio logo depois do quinto aniversário, antes de a vacina chegar, em 1955. Os médicos avisaram a família que ela não passaria dos vinte. Morreu em 26 de junho de 2026, aos setenta e oito anos, a última pessoa dos Estados Unidos que ainda vivia dentro de um pulmão de aço. A Associated Press publicou o obituário no dia 11 de julho; a STAT, dois dias depois.
O obituário foi escrito por ela mesma. A irmã só precisou preencher a data. O texto descreve uma apaixonada por beagles, que ajudava no resgate de animais compartilhando anúncios no Facebook.
Nos últimos cinco anos de vida, não conseguia mais sair de casa. Nos últimos dois, passava quase o dia inteiro dentro da máquina. Depois do 11 de setembro, querendo entender o que tinha acontecido, entrou numa sala de bate-papo na internet e conheceu um homem no Egito. A conversa durou mais de vinte anos. Ele conseguiu o visto. Casaram em fevereiro. Ela morreu em junho.
O verso das muitas águas é lido em casamento atrás de casamento, quase sempre para casais que nunca vão ser cobrados por ele. Martha foi cobrada em cada cláusula. O poema não para nas enchentes. Ele diz que um homem que oferecesse tudo o que tem em troca de amor sairia da sala debaixo de risada. Água apaga quase tudo. Dinheiro move quase todo o resto. O poema diz que Deus deixou uma exceção montada no mundo, e essa exceção não quebra.
Quase todo o resto da vida dela funcionava a dinheiro e maquinário. Cindy McVey, a irmã, passou anos atrás de alguém vivo que ainda soubesse consertar um pulmão de aço. Depois, chorando: "Mas, como ela é a última, a gente não precisa mais disso."
A máquina tinha preço, tinha técnico e teve um último dia. Os vinte anos não tinham nada disso. O amor acabou sendo a coisa mais resistente daquela casa, e nunca esteve à venda.