A Hungria prende os ministros de um regime que chama de Estado mafioso e recupera bilhões. A tentação é vencer com os métodos do próprio regime antigo.
A justiça, somente a justiça seguirás, para que vivas e possuas em herança a terra que te dá o SENHOR, teu Deus.
Deuteronômio 16:20
Um regime que rouba deve responder por isso. O difícil é responder sem se tornar aquilo que você substituiu. Em 29 de setembro, a Hungria avançou mais um passo nesse problema. A polícia deteve dois ex-ministros dos dezesseis anos de Viktor Orbán no poder. Um é suspeito de ter recebido cerca de 30 milhões de euros em subornos; o outro, de ter desviado 46 milhões de euros de verbas culturais para o que parece ser um fundo de campanha. Péter Magyar, que pôs fim ao governo de Orbán no início deste ano, chama sua limpeza de Operação Expurgo, e nesta semana ela entrou em uma nova fase.
O roubo foi real. Em Felcsút, a aldeia natal de Orbán, com menos de 1.800 habitantes, há um estádio de futebol com quase 4.000 lugares. Foi construído com dinheiro público europeu e quase nunca abre. A Transparência Internacional classificou a Hungria como o país mais corrupto da Europa. Magyar diz que a roubalheira custou à nação até um décimo de tudo o que ela produz. Um país que deixasse passar um roubo dessa escala só ensinaria a seus próximos governantes que roubar compensa.
As regras mais antigas para este momento estão em Deuteronômio, num encargo aos juízes de Israel quando o povo se preparava para governar a si mesmo. A ordem de seguir a justiça repete a palavra: justiça, e depois justiça de novo. O hebraico mantém as duas palavras, e os antigos rabinos se recusaram a tratar a repetição como um acaso. Ouviram nela uma regra: buscar a justiça, e buscá-la por meios justos. A linha logo antes, o versículo 19, nomeia o que isso exclui: torcer o direito, ser parcial e aceitar suborno, pois o suborno cega os olhos dos sábios e distorce a causa dos justos.
Essa lista é um retrato exato do regime que Magyar está desmontando. A mesma lei que condena aqueles governantes agora obriga os que os substituem. No mesmo dia, o parlamento retirou a própria imunidade de Magyar por causa de um incidente menor, e ele acusou os promotores de misturar seu caso com os de corrupção. Orsolya Ferencz, ex-funcionária do Fidesz, alertou que a campanha "pode virar uma inquisição, uma caça às bruxas". Ferenc Biró combate a corrupção há anos e agora enfrenta uma investigação que considera política: "Pessoalmente, sinto que é humilhante." Uma justiça que chega pela injustiça é apenas o velho regime com um nome mais limpo.
Quando Neemias voltou para uma Jerusalém em ruínas, gastou suas forças reconstruindo o muro em vez de acertar contas (Neemias 2:17). Muros são limites. Prender os culpados ainda deixa a próxima eleição livre para capturar os tribunais. Reconstruir os limites fecha essa porta, e limites bem erguidos duram mais do que as mãos que os levantam.
Sources
In Hungary, scaffolding rises for a democratic repair job
The Christian Science Monitor
With two Orban-era ministers detained, Magyar's Operation Purge takes shape
Euronews
Hungary's government submits bill to set up anti-corruption office
Reuters
Hungary begins hunt for corrupt regime's billions
Deutsche Welle
Two Fidesz-era officials detained as government's corruption drive widens
Hungarian Conservative