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Em 7 de setembro de 1822, um príncipe bradou independência à beira de um riacho. O Brasil ainda data a vida de um país inteiro àquela única tarde.
Pode uma terra nascer em um só dia? Pode uma nação nascer de uma só vez? Pois assim que Sião entrou em trabalho de parto, ela deu à luz os seus filhos.
Isaías 66:8
Em 7 de setembro de 1822, o príncipe regente Pedro cavalgava às margens do riacho Ipiranga, nos arredores de São Paulo, abriu às pressas as cartas que acabavam de alcançá-lo e, segundo a história que o Brasil conta desde então, desembainhou a espada e bradou Independência ou Morte. Ontem o país marcou o ducentésimo quarto aniversário daquele grito, ainda datando a vida de uma nação inteira a partir de uma só tarde à beira de um riacho.
O profeta que encerra o livro de Isaías encara a mesma impossibilidade. Sua pergunta mais conhecida é se uma terra pode nascer num único dia, se um povo inteiro pode vir à luz de uma só vez, e ele a faz do jeito que se pergunta por algo que não deveria ser possível.
A resposta é mais estranha que a pergunta. Repare na linha logo antes dela, no versículo 7: antes mesmo de entrar em trabalho de parto, Sião já deu à luz, e a criança chega adiantada, antes das dores. É a ordem normal do nascimento invertida, a chegada antes do esforço, e essa inversão é o ponto. O que uma mãe costuma alcançar com muito trabalho aparece primeiro, como um presente. Ainda assim, o profeta não finge que o parto nunca existiu. Ele mantém as duas imagens diante de nós ao mesmo tempo: a chegada que parece ter levado uma tarde, e o trabalho escondido por baixo dela, que ninguém pensa em pôr num quadro.
A história do Brasil guarda esse mesmo tempo duplo. O grito levou uma tarde. A nação levou anos. Portugal só a reconheceu em 1825, e a cena limpa e cinematográfica que a maioria dos brasileiros ainda consegue imaginar foi, em boa parte, fixada na memória nacional décadas depois, por um artista diante de uma tela enorme.
A passagem nem sequer deixa o nascimento em mãos humanas. Ela termina com uma pergunta que Deus faz a respeito de si mesmo, no versículo 9: eu levaria uma nação à beira do parto para depois não fazê-la nascer? Aquele que abre o ventre é o mesmo que leva o nascimento até o fim. Os filhos de Sião lhe são dados. O esforço nunca foi o que os produziu.
Toda fundação se lembra de si mesma como um grito. Quase sempre foi um trabalho de parto.
