Cabo Verde perdeu para a Argentina e meio milhão de pessoas recebeu a seleção como se fossem campeões. Zacarias perguntou quem despreza o dia das pequenas coisas.
Pois quem despreza o dia das coisas pequenas?… estes são os olhos do SENHOR, que percorrem toda a terra.
Zacarias 4:10
No domingo, 5 de julho, dezenas de milhares de pessoas se aglomeraram na área da pista do aeroporto da Praia, e do avião a cena deve ter parecido o Atlântico invadindo a terra firme. Um oceano azul. Foram todos receber uma seleção de futebol que perdeu.
Cabo Verde são quinhentas mil pessoas espalhadas por dez ilhas vulcânicas. Número 67º do ranking. A segunda menor nação da Copa, e a menor que já chegou às oitavas de final. Ficaram no empate sem gols com a Espanha, a campeã europeia, e depois levaram a Argentina para a prorrogação antes de cair por 3 a 2, a uns dez minutos de uma disputa de pênaltis com Messi. Perto de doer. Não perto o bastante para vencer.
E o país inteiro foi para a rua assim mesmo.
Existe uma frase em Zacarias, dita a um punhado de gente desanimada que reconstruía um templo capaz de envergonhar qualquer um que se lembrasse do antigo, e ela pergunta quem despreza o dia das pequenas coisas. É uma pergunta afiada. O mundo despreza o que é pequeno o tempo todo. Coloca as nações em ordem de PIB e ranking, coloca as pessoas na mesma fila, e arquiva os miúdos como "história bonitinha" antes de seguir rumo aos vencedores.
A resposta do profeta é que os olhos que percorrem toda a terra não fazem essa conta. Eles se demoram sobre quem ninguém enxerga. Enquanto todo mundo media a altura das torres, esses olhos estavam no alicerce.
O goleiro, Vozinha, tem 40 anos, e alguém trouxe a mãe dele por cima de um oceano para que ela enfim pudesse vê-lo jogar. Os torcedores se debruçavam sobre as grades pedindo autógrafo, e um deles disse que tinha ido ali só para agradecer. A gente dá dignidade a um lugar pela maneira como se porta nele. Isso vale uma pista lotada de bandeiras, e sempre valeu.