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Um estudo de seis décadas de letras pop mostra cuidado e decência minguando e crueldade e desprezo crescendo. As paradas talvez falem menos de música do que da gente.
O homem bom, do bom tesouro do seu coração, tira o bem
Lucas 6:45
As paradas estão com febre, e semana passada alguém finalmente mediu a temperatura.
Um estudo da Queen Mary University of London, publicado em 24 de junho, jogou cerca de 380 mil músicas num sistema treinado para farejar o clima moral de uma letra, e o que apareceu foi uma inclinação lenta, de seis décadas. As palavras ligadas à bondade, a cuidar do próximo, à decência simples foram ficando raras. As palavras ligadas à crueldade, à traição, ao lábio torcido e à cara fechada foram subindo. Sessenta anos de topo das paradas, e o ponteiro foi saindo do “por favor” e chegando no “cai fora”.
Dá para ouvir o sermão que isso quer virar: a música piorou, essa juventude não presta, o mundo inteiro indo ladeira abaixo, com a playlist tocando ao fundo para fazer companhia.
É um sermãozinho gostoso de pregar, e é quase tudo bobagem. Porque a leitura honesta é mais devagar e bem menos divertida na roda de amigos. As paradas não são uma radiografia da alma humana. Os gêneros que mandam nelas mudaram por completo desde 1960, o crooner de smoking deu lugar ao moleque com uma batida no computador, e quem acha que o passado era inocente nunca prestou atenção no que o passado andava cantando.
A nostalgia é uma mentirosa de voz bonita.
Mesmo assim. Deixe o estudo todo de lado por um instante, e uma frase antiga de Jesus continua zunindo por baixo dele. A boca fala do que está transbordando no coração. Um sucesso é uma cultura inteira falando dormindo, dizendo em voz alta, numa batida grudenta o bastante para vender, aquilo em que ela já acredita pela metade e tem certa vergonha de admitir no almoço de domingo. A música é a confissão. O refrão é a parte em que todo mundo canta junto.
Mas uma canção é via de mão dupla, e é aqui que as manchetes se perdem. Ela sai de um coração, sim. Ela também volta para dentro de um. O que um povo canta é em parte confissão do que ama e em parte ensaio daquilo que está virando, do jeito que a gente treina uma escala até os dedos acharem sozinhos no escuro. E o que vale para uma civilização inteira e agitada vale, que Deus nos ajude, para as dez músicas tristes que você deixa no repeat.
Então a pergunta de verdade nunca foi se as paradas ficaram mais cruéis. Essa fica para os sociólogos, e eles que se divirtam. A pergunta é mais perto do osso, e tem o seu nome. O que você anda deixando no repeat ultimamente, no fone, no carro, no toca-fitas da cabeça que toca sozinho mesmo quando você não pede? Que verso você já cantou para si mesmo tantas vezes que começou, sem perceber, a acreditar nele? E quando enfim escuta as palavras saindo da sua própria boca, é essa a pessoa que você queria treinar para ser?
“Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento” (Filipenses 4:8).
Ou, se preferir: toque essas.