SOUL

Wendell Berry fez de ficar a sua ambição

Friday, September 4, 2026

Escreveu 50 livros a lápis na terra que sua família cultivava desde 1803. Quando morreu na segunda-feira, aos 92 anos, gente que não concorda em nada chorou junto.

Diligenciai por viver tranquilamente, cuidar do que é vosso e trabalhar com as próprias mãos.

1 Tessalonicenses 4:11

Em 31 de agosto, Wendell Berry morreu em casa, em Port Royal, no Kentucky, aos 92 anos, na terra que sua família cultivava desde 1803. Aos 30, deixou o cargo de professor na Universidade de Nova York para cultivá-la, e escreveu depois que "tinha voltado para ficar". Ficou, por seis décadas: cerca de 50 livros a lápis, datilografados numa máquina de escrever comprada nova em 1956. Nunca teve um computador.

Ambientalistas choram o homem que combateu a agricultura industrial. Conservadores que deixaram Washington choram o homem que os mandou para casa. Gente que não concorda em nada concordou em amá-lo. Os elogios fúnebres a um homem que recusou as telas sobem de teclados e celulares.

Seu conselho, quando a NPR o arrancou dele em 1998: "pare em algum lugar e fique ali. Aprenda a história dele, e os nomes das plantas, dos animais e dos vizinhos". Ele chamava as pessoas ligadas ao seu canto do Kentucky de "a membresia", e usava a palavra no sentido que uma igreja lhe dá.

Num país onde partir é o preço do sucesso, ele fez de ficar uma disciplina de fé.

Paulo escrevia a uma igreja jovem tão certa de que o mundo estava acabando que o trabalho comum parecia indigno do momento. Seu conselho soa como uma contradição, ambição apontada para a pequenez. Berry apostou sessenta anos nisso.

"Mas assentar-se-á cada um debaixo da sua videira e debaixo da sua figueira, e não haverá quem os espante…" (Miqueias 4:4)

Essa é a cena final dos profetas, a recompensa no extremo da história. O que nos faz parar é o quanto ela é pequena. Um pedaço de chão, árvores frutíferas, vizinhos sem nada a temer. Berry viveu como se valesse a pena ensaiá-la desde cedo.

Ele disse a Bill Moyers, em 2013, que boa parte do que escreveu tinha sido "uma ação de graças por coisas preciosas". Os tributos desta semana são o mesmo tipo de escrita, agora voltada para ele. A Front Porch Republic se despediu com Milton: para os fiéis, a morte é a porta da vida. Fiel sempre foi a palavra dele. Acontece que dá para chegar a essa porta sem nunca sair de casa.

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